ASTURIANOS d'ASTURIAS n'ASTURIAS
06/10/2006
Soltar-yes este novo "El berro d'Ipiranga" nos morros, quer dicir que... ¿Empeza a escachar el Imperio Llingüístico del Sol "Poñente", antias de ter nacido?
Brasil e Portugal já falam duas línguas diferentes
MARCOS BAGNO
Revista Galileu de fev/2002.
Me perguntam freqüentemente se o português do Brasil e o português de Portugal já são duas línguas diferentes. Os cientistas que encaram a língua como uma atividade social, como um trabalho empreendido pelos falantes nativos em conjunto - atividade por meio da qual eles constroem a identidade cultural de sua comunidade lingüística -, respondem que, sim, brasileiros e portugueses falam duas línguas diferentes. Línguas muito aparentadas, é verdade, mas diferentes, porque nenhum brasileiro está preocupado em construir, com sua atividade lingüística, a identidade cultural do povo português, e vice-versa. Quanto ao nome que se deve dar à língua falada aqui, acho pessoalmente que a designação português brasileiro (empregada como termo técnico pelos pesquisadores) já dá conta de mostrar que estamos nos referindo a uma língua diferente da língua dos portugueses. É importante reconhecer essas diferenças, deixar de considerá-las como "erros" e admitir que são, de fato, regras que pertencem à gramática da língua materna de 170 milhões de seres humanos, à gramática do português brasileiro.
Infelizmente, porém, o reconhecimento tranqüilo dessas diferenças ainda está muito longe de ser uma realidade. Apesar dos grandes avanços da ciência lingüística no Brasil e das importantes contribuições que ela tem dado à reformulação do ensino de língua nas escolas, o espírito colonial ainda é muito forte em nossa sociedade no que diz respeito às questões lingüísticas.
A grande maioria dos brasileiros rejeita sua maneira de falar, porque tenta ouvir e ver sua língua com ouvidos e olhos do Outro, do português, suposto "dono" da língua. Basta ver o comportamento francamente esquizofrênico dos nossos meios de comunicação. De um lado, existe a prática dos jornalistas e demais comunicadores, que oferecem ótimos exemplos de uso eficiente e criativo do português brasileiro em seus textos escritos. Do outro lado, os manuais de redação das grandes empresas jornalísticas, que cobram a obediência estrita a regras sintáticas obsoletas, que ninguém mais emprega, nem mesmo os escritores, que sempre foram tidos como "modelos" de uso "correto" do idioma. Esses manuais, em muitos casos, são mais inflexíveis e conservadores do que as próprias gramáticas normativas, que já se baseiam em concepções arcaicas de língua e de linguagem, cristalizadas numa doutrina que se mantém intacta há 2.300 anos!
Seria muito saudável, para uma efetiva democratização das relações sociais em nosso país, que os profissionais da comunicação procurassem se inteirar das discussões científicas sobre a linguagem e, mais especificamente, sobre a língua do Brasil. Para fazer isso, será preciso que recorram aos especialistas da área, aos lingüistas profissionais, e não a autoproclamados "defensores da língua" que, sem nenhuma formação científica consistente, lutam contra a "ruína" e "corrupção" do português. Acreditar que existem erros na língua falada ou que ela pode se corromper é tão científico quanto acreditar que a Terra é plana e o Sol gira em torno dela, ou que as moscas nascem da carne podre, ou que apontar para as estrelas à noite faz nascer verruga na ponta dos dedos. É triste verificar, porém, que esse folclore lingüístico, que não resiste à menor análise empírica, ainda vigora com tanta intensidade no senso comum dos brasileiros. Pior ainda é que ele seja alimentado diariamente pelos meios de comunicação, que dão roupagem eletrônica de última geração ao que existe de mais arcaico, rudimentar e tosco em termos de concepções de língua. Não é exagero afirmar que os atuais empreendimentos da mídia brasileira, no que diz respeito à língua, prestam um enorme desserviço à efetiva educação lingüística do nosso povo, porque só contribuem para nos convencer cada vez mais de que falamos, irremediavelmente, uma língua errada e estropiada. Daí para acreditar que somos, todos, errados e estropiados, a distância é muito pequena.
MARCOS BAGNO é Doutor em Língua Portuguesa pela USP, escritor e tradutor. Publicou, entre outros, Preconceito lingüístico: o que é, como se faz (Loyola) e Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa (Parábola).
Website: www.marcosbagno.com.br
Por: FdN | Documentación | Comentarios (1) | Referencias (0)
Llido: 423 veces
NONATO ALBUQUERQUE | 18-10-2006 21:55:51